domingo, 7 de novembro de 2010

Ana Maria & o passarinho


Ele pousou no coqueiro do quintal
E esbanjou o seu canto natural
Não notou que eu notava suas notas
Sua canção, sua melodia

Abriu o bico sem pensar na multidão
De borboletas que voavam ao seu redor
E sem dor ou vício algum
Abriu as asas livre a voar
Pois quem canta o mal espanta

Canta passarinho
Canta enquanto a noite não chegar
Por que quando o sol adormecer
Vontade não terás mais de cantar
Canta passarinho
Canta enquanto o céu ainda é belo
Canta e satisfaz o meu anelo de te ouvir cantar


Ela varreu folhas secas no quintal
E sussurrou uma canção ao Deus do céu
E não notou que ele notava suas notas
Sua prece, sua melodia

Abriu a boca sem pensar na multidão
De testemunhas celestiais ao seu redor
E o céu então parou
Para Deus ouvi-la cantar
 Pois só Ele o mal espanta


Canta Ana Maria
Canta até a noite terminar
Por que quando o sol não existir
Cristo tua luz sempre será 
Canta Ana Maria
Canta em meio a toda essa dor
Satisfaz o anelo de ouvir-te o teu Criador.


Autor da Música: Diego Aquino.  Ele Declara:

Depois de muito tempo compondo músicas que pareciam mesmo irmãs umas das outras, seja na forma como eu escrevia as letras ou dava ritmo e melodia a elas, “Ana Maria e o passarinho” foi o mais diferente que compus, surpreendendo a mim mesmo, mas logo percebi que musicalmente ela é influência de uma banda que eu ouço e gosto muito, o pessoal do Crombie.

Eu demorei a entender quando estava compondo essa música onde ela iria chegar, e sobre o quê na verdade ela estava falando. Foi numa tarde em que eu estava aqui no computador, triste, lidando com conflitos interiores diversos, me levantei e fui até o quintal, olhei pro céu ouvindo uma música do Leeland nos meus fones de ouvido e disse: “Deus me ajuda”.

O céu realmente estava uma coisa linda de se ver - fim de tarde, uns raios traspassando algumas nuvens em tom de amarelo. Resolvi desligar o MP3 player do celular e ligar a câmera do mesmo pra registrar a paisagem, foi quando por “entre os coqueiros do quintal” eu ouvi um passarinho cantando, empolgado, distraído, como quem canta debaixo do chuveiro, comecei a filmá-lo em seu canto, apesar de não conseguir vê-lo por entre as folhas do coqueiro.

Entrei em casa e quando voltei à varanda, lá estava ele no telhado vizinho, visível, no seu ofício de cantar, e eu não perdi a chance de filmá-lo outra vez. É engraçado que nessa filmagem ele demorou um pouco a cantar, então eu soltei um sussurro em meio ao vídeo: “Vai, canta passarinho”.
É nessa hora que o cérebro da gente recebe um choque e aquela lâmpada imaginária acima dele se acende, hahaha. Meu anseio de vê-lo cantar virou música, e começou justamente pelo primeiro refrão: “Canta passarinho, canta enquanto a noite não chegar...”.

Eu cantava e dizia a mim mesmo: “que diferente, nunca fiz algo assim” – e a empolgação tomou conta de mim, peguei meu violão e comecei a contar todos os acontecimentos que me rodearam naquele fim de tarde – eu vendo um passarinho cantar, que cantava sem me notar, apenas no seu ofício de cantar-cantar e voar-voar. Descrevi, assim, tudo o que vi na primeira parte da canção, como vocês podem perceber.

Eu já não sabia se repetia a primeira estrofe ou se tentava continuar o texto. Então, ela surgiu, varrendo folhas secas no quintal e cantando despretensiosamente uma canção ao Deus do Céu. Acredito que foi Deus respondendo ao meu clamor e explicando a alegoria que ele me mostrou na primeira parte da canção. Eu saí do meu computador, sem muita pretensão, ou forte sensação de ser notado por Deus ali no meu quintal. E é justamente o que Ele nos explica na segunda parte da canção através da vida de uma dona de casa chamada Ana Maria, que cantava e conversava de forma despretensiosa com Deus em seu quintal, sabe, quando nós jogamos alguma frase isolada na nossa mente e Deus capta (?!), faço isso constantemente, e sei que todos fazem.

Nós não temos a capacidade de ver o quanto Deus se importa com as nossas orações, ou com nossas canções de bolso, aquelas que a gente carrega pra momentos nossos, só nossos. Ele se importa, por que se importa conosco, com cada detalhe, com cada decisão que tomamos, com cada afazer nosso – Ele está ali, em sua onipresença e onisciência.
Não sei por quais problemas Ana Maria passava, não mesmo, apesar de ter composto, a vida de Ana Maria se tornou uma meditação que não cabe só a uma opinião, mas é cabível ao sentimento de todos que se sentirem como ela. Talvez por isso “Ana Maria”, a junção de dois nomes tão populares. Quando me perguntam “quem é Ana Maria”, eu digo que é o nome perfeito pra representar qualquer pessoa, por ser a união de dois nomes tão comuns. Ana Maria consegue ser abrangente. Mas eu também posso responder que é uma tia minha! =P

Acima de tudo, percebe-se em nossa amiga Ana, algo que permeia o ser humano de um modo geral – o anseio pela eternidade. Talvez Ana Maria cantasse ali o clássico: “Mais perto quero estar, meu Deus de ti...” – é coerente.

Biblicamente, e sem nem pensar nisso ao compor, ela se identifica com a Ana, a estéril mulher de Elcana do livro de I Samuel.

Já conhecemos essa história, mas quero grifar alguns pontos dela. Ana era muito amada por seu marido, que parecia ser um ótimo cônjuge (não é qualquer cara que se garante em dizer: “não sou melhor pra você do que dez filhos?”) e tinha que conviver com Penina, a outra mulher de Elcana, que por acaso devia ser uma coelha na mente de Ana, pois tinha filhos (e não devia ser pouco, pra Elcana falar de dez filhos assim). E este era o motivo da amargura de nossa Ana da antiguidade, ela queria ter o privilégio de conceber, de dar um filho ao homem que amava, pois o opróbrio da época era uma mulher estéril, não dar um herdeiro ao marido era uma vergonha imensurável socialmente.

Ana se encontrava, amargurada, insegura apesar de todo amor de Elcana, frustrada, sem ânimo. A família tinha o costume de todos os anos subir a uma cidade chamada Siló para adorar a Deus, onde Penina aproveitava para provocá-la ferozmente, pois apesar de Penina ser a coelha do pedaço, Ana recebia porção dobrada do que seu marido distribuía a elas, logo – inveja. Mas a pobre da Ana de tão chateada não comia nem uma costelinha.
E agora quero transcrever uns versos importantíssimos:

Certa vez quando terminou de comer e beber em Siló, estando o sacerdote Eli sentado numa cadeira junto à entrada do santuário do Senhor, Ana se levantou e, com a alma amargurada, chorou muito e orou ao Senhor.
E fez um voto, dizendo: "Ó Senhor dos Exércitos, se tu deres atenção à humilhação de tua serva, te lembrares de mim e não te esqueceres de tua serva, mas lhe deres um filho, então eu o dedicarei ao Senhor por todos os dias de sua vida, e o seu cabelo e a sua barba nunca serão cortados".
Enquanto ela continuava a orar diante do Senhor, Eli observava sua boca.
Como Ana orava silenciosamente, seus lábios se mexiam, mas não se ouvia sua voz. Então Eli pensou que ela estivesse embriagada e lhe disse: "Até quando você continuará embriagada? Abandone o vinho!”
Ana respondeu: "Não se trata disso, meu senhor. Sou uma mulher muito angustiada. Não bebi vinho nem bebida fermentada; eu estava derramando minha alma diante do Senhor. Não julgues tua serva uma mulher vadia; estou orando aqui até agora por causa de minha grande angústia e tristeza".
Eli respondeu: "Vá em paz, e que o Deus de Israel lhe conceda o que você pediu".
Ela disse: "Espero que sejas benevolente para com tua serva!” Então ela seguiu seu caminho, comeu, e seu rosto já não estava mais abatido
.


I Samuel 1.9-18 - NVI

Nós já sabemos o resultado da oração de Ana, mas o que me associa ela à Ana Maria, é a forma inusitada, não comum de orar. Tanto que ela é até discriminada por Eli por estar sussurrando, mas Deus a ouve.
Onde quero chegar com tudo isso é no fato de que Deus ouve nossas orações mais inusitadas, e ainda mais, Ele as responde. Não quero aqui gerar polêmica ou invalidar costumes de alguns neo-cristãos (cabe a cada um crer no que lhe é devido crer – eu creio na Bíblia), mas Deus não precisa de montes, jejuns absurdos, atos proféticos e qualquer movimento espetacular demais para ouvir nossos pedidos, ele só precisa de um lábio sussurrante, ou qualquer outra coisa simples, como uma oração em pensamento, que isso venha significar.

Da mesma forma o Espírito nos ajuda em nossa fraqueza, pois não sabemos como orar, mas o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis.


Romanos 8.26 - NVI


Um grande abraço pra vocês!